O carro parecia bom demais para ser verdade. Um Hyundai Creta anunciado bem abaixo do preço de mercado, publicado num grupo de vendas. Uma mulher de 26 anos fechou negócio, fez duas transferências para chaves diferentes — R$ 23 mil e depois R$ 42 mil — e viu o veículo passar para o próprio nome no documento. Na hora combinada para a entrega, o vendedor não apareceu mais.
O golpe aconteceu em Paranaíba, no interior do Mato Grosso do Sul, em 11 de setembro de 2026. Não foi caso isolado: na mesma semana, um homem de 47 anos perdeu R$ 63,5 mil em Dourados depois que um golpista usou outro número de telefone para se passar por parente e confirmar a vistoria de um carro.
Em Campo Grande, uma mulher de 41 anos fez três transferências antes de perceber que a foto do “parente” no aplicativo de mensagens era falsa. Os três casos foram registrados pelo Campo Grande News em menos de um mês.
Nenhuma das vítimas teve o celular roubado. Nenhuma teve a conta invadida. Em todos os casos, foi a própria pessoa quem abriu o aplicativo e apertou “confirmar”.
Esse é o padrão por trás do golpe do Pix, que já fez mais de 24 milhões de vítimas no Brasil entre julho de 2024 e junho de 2025, segundo levantamento da Febraban. No mesmo período, o sistema financeiro movimentou R$ 35 trilhões e as perdas com golpes e fraudes somaram R$ 29 bilhões. Um recorte anterior, também da Febraban, mostra que o prejuízo específico com fraudes via Pix chegou a R$ 2,7 bilhões em dois anos, alta de 43%.
Uma das variações mais recentes do golpe é também a mais perversa: o golpista transfere um valor para a vítima, pede a devolução para uma chave diferente da que enviou o dinheiro e, na sequência, aciona o mecanismo antifraude do próprio Banco Central contra quem devolveu, alegando ter sido vítima de fraude. A ferramenta criada para proteger o Pix vira arma contra quem tentou ajudar.
Por que a pressa é a arma mais eficiente do golpista
O golpista raramente precisa invadir o aplicativo do banco. Segundo Isaac Sidney, presidente da Febraban, a maior parte das fraudes no Pix acontece por engenharia social: o golpista induz a própria vítima a compartilhar dados sensíveis ou fazer a transferência, sem quebrar nenhuma barreira técnica.
A engenharia social também evoluiu rápido. Um levantamento da empresa de segurança BioCatch, citado pela CNN Brasil, mostra que fraudes por malware cresceram 220% no primeiro semestre de 2025 em comparação ao segundo semestre de 2024, golpes de falsa central de atendimento dobraram no mesmo período, e o volume geral de tentativas de fraude subiu 56%.
O ingrediente comum aos golpes que funcionam é a pressa. O golpista cria um prazo curto — “o cartão vai ser bloqueado em minutos”, “a devolução precisa ser feita agora” — e não dá tempo para a vítima checar a informação com calma. Autoridade falsa, como falar em nome de um banco, da Febraban ou de um órgão público, e medo de perda completam o roteiro. Quatro variações desse roteiro respondem pela maior parte dos casos registrados hoje.
Falso motoboy: a ligação que ainda funciona
O telefone toca e do outro lado alguém se apresenta como funcionário da central de segurança do banco, com música de espera e mensagem institucional incluídas. A vítima nega ter feito a compra apontada, e o golpista afirma que o cartão foi clonado. A saída, segundo o roteiro descrito pelo blog do Nubank, é sempre a mesma: cortar o cartão ao meio “para não danificar o chip” e aguardar um motoboy buscar o pedaço para “perícia”.
O chip intacto continua funcionando. Com a senha que a vítima entregou por telefone, os criminosos fazem compras e, cada vez com mais frequência, também Pix.
Foi o que aconteceu com uma mulher de 86 anos em Mato Grosso: depois de entregar o cartão a um estelionatário que foi até sua casa, ela viu 171 operações entre Pix e saques, somando R$ 350 mil em vinte dias, segundo processo julgado em janeiro de 2026 e divulgado pelo Conjur. A cooperativa de crédito foi condenada a devolver o valor integral; a juíza considerou que a instituição falhou em bloquear transações com aparência de ilegalidade.
Banco não busca cartão em domicílio, e não pede senha por telefone. Quem recebe esse tipo de ligação já está diante do golpe, não importa quão convincente seja a música de espera.
Falso comprador: o comprovante que engana o vendedor
Do outro lado do balcão, o golpe muda de direção. Em vez de ligar para quem compra, o golpista se apresenta como cliente. Ele negocia um produto, promete pagar via Pix e, na hora de fechar, envia uma imagem que parece um comprovante de transferência, com valor, data, hora e status de “concluído”.
O dinheiro nunca chega à conta. Segundo a Transfeera, o golpista costuma usar dois métodos. No primeiro, envia um comprovante adulterado depois de uma transferência que nunca foi concluída. No segundo, inicia o Pix e trava a operação no meio do caminho, usando a captura de tela como prova para apressar a entrega do produto antes que o vendedor confira o extrato.
Os sinais aparecem no próprio comprovante. Nome, CPF ou chave do destinatário que não batem com os dados do vendedor. Código de identificação da transação ausente ou inválido. Formatação diferente da usada pelo aplicativo do banco. Confirmar o valor direto no extrato antes de liberar qualquer mercadoria resolve o problema. Mas só quem já ouviu falar do golpe pensa nisso na hora.
Pix errado invertido: a isca que vira arma contra você
Esse é o golpe mais recente da lista. É também o que mais confunde quem já aprendeu que devolver um Pix recebido por engano é a atitude correta. Segundo reportagem do Estado de Minas, o criminoso transfere um valor para a conta da vítima e pede que ela devolva o dinheiro para uma chave diferente da que enviou originalmente.
A vítima devolve, pensando estar sendo gentil ou seguindo instrução do próprio banco. O golpista então aciona o Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central contra a conta que recebeu o valor inicial, alegando ter sido vítima de fraude, e tenta reaver o dinheiro pela via oficial de quem, na prática, só devolveu o que havia recebido. O prejuízo se duplica: quem caiu no golpe perde o valor devolvido e ainda pode ter a própria conta bloqueada durante a análise do banco.
A defesa é simples de enunciar e difícil de lembrar na hora do aperto: dinheiro recebido por engano nunca deve ser devolvido para uma chave diferente da que enviou.
Falso funcionário: banco, Febraban ou até a polícia no telefone
A voz do outro lado às vezes nem finge ser do banco. Em julho de 2026, moradores de São Paulo relataram ter recebido ligações e e-mails de pessoas que se identificavam como funcionários da Secretaria de Segurança Pública do estado, convocando-os para prestar depoimento sobre supostos financiamentos abertos em seu nome, segundo reportagem da Band.
Durante a ligação, o golpista pedia que a vítima confirmasse dados pessoais para “garantir que estava falando com a pessoa certa”. Com CPF, endereço e outras informações em mãos, os criminosos abriam contas, contratavam empréstimos e faziam compras em nome da vítima. A própria secretaria publicou nota afirmando que não promove esse tipo de contato com o cidadão.
O roteiro se repete com nomes diferentes: banco, Febraban, Receita Federal, polícia. A lógica é sempre a mesma. Uma autoridade supostamente confiável pede confirmação de dados ou movimentação de dinheiro para resolver um problema que a vítima não criou. Nenhuma dessas instituições liga cobrando Pix nem pede confirmação de senha por telefone.
Os sinais que aparecem antes do golpe se completar
Os cinco roteiros acima têm pontos em comum, e são esses pontos, não o disfarce específico, que valem guardar.
- Ligação ou mensagem não solicitada cobrando pressa para resolver algo
- Pedido de senha, código de segurança ou confirmação de dados por telefone
- Motoboy, entregador ou “perito” buscando cartão em casa
- Comprovante de Pix sem verificação direta no extrato do banco
- Instrução para devolver dinheiro recebido por engano para uma chave diferente da que enviou
Qualquer um desses sinais isolado já é motivo para desligar, checar direto pelo aplicativo ou pela central oficial do banco, e não continuar a conversa iniciada pelo golpista.
O que fazer se o golpe já aconteceu
Quando a transferência já saiu da conta, existe um caminho oficial. O Mecanismo Especial de Devolução, criado pelo Banco Central, bloqueia preventivamente o dinheiro antes que o golpista consiga sacar ou repassar o valor adiante. Segundo a Agência Senado, os bancos envolvidos têm até sete dias para avaliar a reclamação e, se a fraude for confirmada, o valor volta integralmente para quem foi vítima.
Vale abrir a solicitação o quanto antes: quanto mais tempo o dinheiro passa na conta do golpista, menor a chance de reaver o valor.
Em Paranaíba, a mulher que comprou o Hyundai Creta não caiu por ingenuidade. Ela viu o carro no próprio nome, verificou o preço, conversou com quem se apresentava como dono. O golpe não precisou quebrar nenhum sistema. Precisou apenas que ela confiasse na pressa de fechar negócio antes que outra pessoa levasse o carro — a mesma pressa que aparece atrás de cada um dos golpes descritos aqui.
Fontes citadas no texto
- Campo Grande News — “Golpe do carro barato usa falso parente e Pix para conta de terceiro” (11/09/2026)
- TopView / Febraban — “Golpes via Pix e boletos já atingiram 24 milhões de brasileiros em um ano” (29/05/2026)
- Finsiders Brasil / Febraban — “Golpes com Pix dão prejuízos de quase R$ 3 bi em dois anos” (11/03/2025, atualizado 23/04/2025)
- CNN Brasil / relatório BioCatch — “Fraudes bancárias crescem 220% no 1º semestre” (15/12/2025)
- Blog Nubank — “O que é o golpe do motoboy e como se proteger dele?” (atualizado 24/08/2026)
- Conjur — “Banco responde por ‘golpe do motoboy’ se transações são atípicas” (29/01/2026)
- Transfeera — “Comprovante Pix falso: como identificar fraudes e evitar prejuízos” (01/07/2026)
- Estado de Minas — “Golpe do Pix: conheça as 7 fraudes mais comuns e como se proteger” (04/02/2026)
- Band — “Golpistas usam nome da SSP para obter dados de vítimas em SP; entenda” (02/07/2026)
- Agência Senado / Senado Verifica — “Pix: fui vítima de golpe. Como recuperar meu dinheiro?” (16/04/2026)




