Golpe da promoção falsa no Instagram e Facebook: como reconhecer e denunciar um perfil clonado

O golpe virou o mais denunciado do Brasil. No primeiro semestre de 2025, bancos associados à Febraban registraram 174 mil relatos de venda ou promoção falsa — um salto de 314% sobre o mesmo período de 2024 que tirou a fraude do terceiro lugar do ranking e a colocou no topo, segundo o SindPD, com base em dados da federação. O padrão se repete de marca para marca: um perfil recém-criado copia a identidade visual de uma empresa conhecida, anuncia um desconto bom demais para ser verdade e cobra pressa de quem comenta ou clica.

Um levantamento independente confirma a escala. Entre 10 e 21 de janeiro de 2025, pesquisadores do NetLab, laboratório de estudos de internet e redes sociais da UFRJ, mapearam 151 anunciantes fraudulentos responsáveis por 1.770 anúncios enganosos e 87 domínios falsos só nas plataformas da Meta. O volume cresceu 35% depois que o governo recuou de uma instrução normativa sobre monitoramento de transações via Pix. Os golpistas aproveitaram a confusão do momento para lançar campanhas em cima do assunto do dia.

A diferença entre cair ou não nesse golpe raramente depende de sofisticação técnica. Depende de reconhecer, em segundos, um perfil que finge ser outro, e de saber os passos certos assim que a suspeita aparece, porque a Meta reage, mas quase nunca antes de a campanha fraudulenta já ter rodado por dias.

Como o golpe da promoção falsa funciona

O roteiro muda pouco de marca para marca. O golpista cria um perfil novo com nome e logotipo quase idênticos aos da empresa real, anuncia uma promoção que ela nunca fez e usa comentários, seguidores comprados ou anúncios pagos para dar volume à publicação. Quem responde é levado a um formulário, a um grupo de WhatsApp ou a uma cobrança de “taxa de frete” para liberar o prêmio.

Foi esse o roteiro por trás da “Mega Promoção 10 anos da Shopee”, golpe que circulou em vídeos com depoimentos falsos no Facebook em julho de 2025: o usuário clicava em “saiba mais”, respondia um quiz rápido, via uma roleta girar até parar em 95% de desconto e caía numa loja fake, sem receber produto nenhum, segundo apurou a Agência Lupa. A Shopee negou a promoção em nota oficial, e o próprio nome da campanha já denunciava a fraude: em julho de 2025 a empresa comemorava cinco anos de operação no Brasil, não dez.

A Tramontina enfrenta a mesma praga há tempos. Perfis falsos já usaram a marca para fingir distribuir brindes e sorteios. É por isso que a empresa mantém hoje uma página oficial de alertas listando os únicos canais verdadeiros (@tramontinaoficial e @tramontinapro no Instagram, /tramontina e /tramontinaPRO no Facebook) e repetindo que não faz promoção, sorteio ou doação fora deles.

Os quatro sinais que entregam o golpe antes do clique

  • Perfil recente: conta criada há dias ou poucas semanas, com número de seguidores incompatível com o tamanho da marca e quase nenhuma publicação antiga.
  • Desconto fora da curva: percentual que nenhuma campanha oficial pratica, ou um prêmio caro demais para o esforço de uma curtida ou um comentário.
  • Prazo artificial: “primeiros 50 que comentarem ganham”, contagem regressiva, urgência desenhada para não sobrar tempo de checar.
  • Cobrança antecipada: pedido de pagamento de frete, taxa ou imposto para “liberar” algo que, por definição, deveria sair de graça.

Por que a fraude disparou 314% em um ano

A explicação, segundo a própria Febraban, está na combinação de três frentes que operam ao mesmo tempo: “criminosos criam páginas falsas que simulam e-commerce, enviam promoções inexistentes por e-mails, SMS e mensagens de WhatsApp e investem na criação de perfis falsos de lojas em redes sociais.” Nenhuma frente sozinha explicaria o salto — é a coordenação entre elas, batendo no mesmo consumidor por canais diferentes, que multiplica o número de vítimas.

O quadro mais amplo aponta na mesma direção. A SaferNet Brasil registrou 87.689 denúncias de crimes cibernéticos em 2025, alta de 28,4% sobre 2024, sem abrir a fatia específica de golpe de promoção falsa, mas no mesmo sentido de crescimento generalizado. A Black Friday e o Natal, períodos em que a própria Febraban recomenda atenção redobrada, ainda nem entraram nessa conta do primeiro semestre.

O que a Meta remove — e o que ainda escapa

A Meta diz ter removido, só em 2025, quase 10 milhões de contas que se passavam por criadores de conteúdo, mais de 21 mil páginas falsas e cerca de 8 milhões de contas fraudulentas no Facebook e no Instagram. A isso somam-se quase 12 milhões de contas ligadas a golpes e mais de 6 milhões de contas de WhatsApp no mesmo pacote de dados, divulgado em maio de 2026 e reproduzido pelo TI Inside.

O próprio número expõe o limite da ação: a Meta reconhece que quase 70% dessas contas caem em até uma semana de existência — o que também significa que, nos primeiros dias, o perfil ficou no ar publicando e enviando mensagem sem barreira nenhuma. É exatamente essa janela que o golpe da promoção falsa explora. Ele não precisa durar meses. Precisa durar o tempo de uma campanha de poucos dias, antes de a plataforma reagir.

Como denunciar um perfil clonado no Instagram ou Facebook

A denúncia segue o mesmo caminho, seja o perfil falso de uma marca ou de uma pessoa física: dentro do perfil suspeito, no aplicativo, toque no menu de três pontos, escolha “Denunciar” e siga a opção que descreve um perfil se passando por outra pessoa, celebridade ou empresa. O passo a passo completo está na Central de Ajuda do Instagram.

Empresas com marca registrada têm um segundo caminho: o formulário de denúncia de violação de marca da Meta, aberto a qualquer titular que encontre um perfil ou anúncio usando seu nome sem autorização.

Denunciar não garante resposta imediata. Mas é o único gatilho que aciona a análise humana da plataforma — sem denúncia, o perfil só sai do ar se algum sistema automático o identificar primeiro, e o histórico dos últimos dois anos mostra que esse sistema chega atrasado com frequência.

Se você já comentou, clicou ou pagou

Pare no ponto em que está. Não envie mais nenhum valor, mesmo que o golpista prometa devolver tudo depois de mais um pagamento — esse pedido extra é parte do roteiro, não uma correção dele.

Separe prints da conversa e do perfil antes que o golpista apague tudo, e guarde o comprovante de qualquer valor pago. Se o pagamento foi por cartão, ligue para o banco ou emissor e conteste a transação como fraude. Se foi por Pix, o caminho é o Mecanismo Especial de Devolução, acionado direto no aplicativo do banco. Ele só funciona enquanto o golpista ainda não tiver sacado o valor.

Registre a ocorrência no consumidor.gov.br ou no Procon local, e faça um boletim de ocorrência: ele formaliza o crime para efeito de disputa bancária e de eventual ação contra a plataforma.

O alerta do INSS sobre o perfil falso @assistencia_inss, que prometia acelerar a liberação de valores de descontos associativos retidos, termina com uma frase que vale para qualquer marca clonada: o órgão nunca pede documento, senha ou dado bancário pelas redes sociais — só pelo aplicativo Meu INSS, pelo telefone 135 ou pelo gov.br. É a mesma checagem de três segundos que teria desmontado a loja que usou o nome da Tramontina e a “Mega Promoção 10 anos” que imitou a Shopee: abrir o perfil oficial, comparar o nome de usuário e perguntar por que uma empresa cobraria para dar alguma coisa de graça.


Fontes citadas no texto

Rafael Mendes
Rafael Mendes

Olá! Eu sou Rafael Mendes, fundador e redator do Consumidor Certo.

Há mais de oito anos produzo conteúdo sobre consumo, serviços, tecnologia e atendimento ao consumidor no Brasil. Meu trabalho é transformar regras, leis e procedimentos em informações simples, práticas e fáceis de entender.

No Consumidor Certo, pesquiso diariamente normas do Código de Defesa do Consumidor, orientações de órgãos oficiais, bancos, empresas e plataformas digitais para explicar quais são os seus direitos e quais passos você pode seguir para resolver problemas com compras, Pix, cartões, entregas, garantias, assinaturas e outros serviços.

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Acredito que informação de qualidade ajuda o consumidor a tomar decisões melhores, evitar prejuízos e resolver problemas de forma mais rápida e segura.

Artigos: 54

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