Ester Nunes não mandou currículo para ninguém. Em agosto, a moradora de São Paulo recebeu uma mensagem no WhatsApp oferecendo emprego em home office — sem processo seletivo, sem entrevista, sem nome de empresa que ela reconhecesse. Bastava responder “sim”.
A primeira tarefa foi avaliar cinco empresas no Google e mandar o print como prova. O pagamento caiu na hora: pouco, mas caiu. Depois vieram os pedidos de depósito para “liberar” tarefas melhores. Primeiro R$ 300. Depois mais R$ 900. Sempre por PIX, sempre com a promessa de um retorno maior logo em seguida.
Quando pediram R$ 2,6 mil de uma vez, ela parou. Já tinha perdido R$ 1,2 mil. O saldo que aparecia na tela do aplicativo, a “prova” de que o dinheiro ia voltar, nunca existiu de verdade, segundo o relato publicado pelo Sindicato dos Bancários de Goiás.
O golpe que pegou Ester não é aquele que a maioria dos brasileiros aprendeu a temer. Durante anos, a versão mais comum foi mais direta: uma vaga anunciada como oportunidade única e uma cobrança antecipada: kit de trabalho, taxa de cadastro, exame médico, antes mesmo da contratação. Essa fraude continua ativa. Ao lado dela, cresceu outra, mais lenta e mais convincente: o golpe da tarefa, que paga de verdade no começo para cobrar cada vez mais depois.
As duas chegam pelo mesmo canal e miram a mesma pessoa: quem está sem emprego, endividado ou só quer complementar a renda. Mas pedem defesas diferentes. Desconfiar da vaga que cobra é questão de bom senso. Desconfiar da tarefa que paga exige entender por que o golpista devolve dinheiro antes de levar o resto.
Duas fraudes, uma isca só
As duas fraudes usam o mesmo gancho: uma oferta que chega sem que a vítima tenha procurado emprego. Depois, os caminhos se separam.
Na vaga falsa, o golpista finge um processo de contratação. Pede documentos, anuncia uma aprovação rápida demais e cobra algum valor antes do primeiro dia de trabalho: o kit de ferramentas, o exame admissional, o curso obrigatório. A vítima paga uma vez, nunca começa a trabalhar, e o contato some.
No golpe da tarefa, não existe contratação para fingir. O golpista monta um aplicativo ou um grupo de WhatsApp que simula uma plataforma de microtarefas remuneradas: curtir vídeo, avaliar produto, seguir perfil. As primeiras tarefas pagam mesmo, em minutos, para que a vítima confie. Depois, cada rodada nova cobra um depósito maior para “liberar” o pagamento anterior — uma estrutura que se sustenta enquanto houver gente entrando, e que colapsa como qualquer pirâmide, sempre no mesmo lugar: no bolso de quem entrou por último.
A vaga que cobra para te contratar
A Federação Brasileira de Bancos formalizou um alerta sobre essa versão do golpe em maio de 2026, depois de identificar aumento nas reclamações de candidatos abordados por WhatsApp, e-mail e redes sociais. Segundo Raphael Mielle, diretor de Serviços e Segurança da Febraban, o primeiro passo antes de responder qualquer proposta é confirmar a vaga direto no site ou no LinkedIn oficial da empresa — nunca só pelo link enviado na mensagem.
O padrão se repete: salário muito acima do praticado para a função, processo seletivo sem entrevista real, e um pedido de pagamento disfarçado de burocracia: taxa de inscrição, exame médico, curso preparatório, “kit” de uniforme ou equipamento. Nenhuma empresa séria cobra para contratar. Isso vale para vaga anunciada em qualquer canal, sem exceção.
Esse roteiro já é conhecido o bastante para que boa parte dos candidatos desconfie. O golpe da tarefa foi desenhado para escapar justamente dessa desconfiança.
A tarefa que paga de verdade — até parar de pagar
O golpe da tarefa resolve o problema de credibilidade do golpista de um jeito simples. Paga primeiro. A consultoria de cibersegurança Redbelt Security mapeou 73 grupos ativos com esse esquema no Telegram e no WhatsApp em setembro de 2024. Até dezembro de 2025, o número tinha subido para 128 — alta de 75%.
“O golpe evoluiu para uma fraude híbrida que mistura engenharia social, phishing e aplicativos maliciosos”, afirma Eduardo Lopes, CEO da Redbelt Security, no levantamento. Os golpistas copiam a identidade visual de marcas conhecidas, como Shopee, Shein, AliExpress, Magazine Luiza e Mercado Livre, para dar credibilidade a falsos programas de “embaixadores” ou “avaliadores” remunerados.
O dinheiro que entra pelas primeiras tarefas costuma sair de contas de “laranjas”, intermediários que recebem uma comissão para movimentar valores roubados sem que o dono da conta principal apareça. Por isso denunciar rápido importa: parte do fluxo ainda pode estar dentro do sistema bancário quando a vítima percebe o golpe.
Os sinais que separam golpe de oferta real
Antes de responder qualquer mensagem sobre uma vaga ou uma “renda extra”, vale conferir dois roteiros diferentes.
Na vaga falsa, desconfie quando o contato:
- chega sem que você tenha se candidatado a nada;
- oferece salário muito acima do praticado no mercado para a função;
- pede pagamento antes da contratação, sob qualquer nome — taxa, kit, exame, curso;
- não aparece em uma busca simples, ou o CNPJ informado não bate com o nome do negócio.
No golpe da tarefa, desconfie quando:
- a primeira tarefa paga de verdade, em poucos minutos, um valor pequeno;
- cada rodada seguinte cobra um depósito maior para liberar o ganho anterior;
- o saldo cresce só dentro do aplicativo, e sacar exige mais um depósito;
- prints de “comprovantes” alheios circulam o tempo todo no grupo, sempre de gente que “recebeu”.
O tamanho do golpe em números
O golpe do emprego é uma fatia de um problema bem maior. Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, o Brasil registrou cerca de 34 bilhões de tentativas de golpes digitais, uma média de 201,6 abordagens por adulto, segundo o relatório “O Estado dos Golpes no Brasil 2026”, da Global Anti-Scam Alliance, divulgado em agosto e reportado pela CNN Brasil. No período, 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro de verdade, com prejuízo total de R$ 21,2 bilhões e desvio médio de R$ 1.287 por pessoa.
O WhatsApp lidera como porta de entrada, citado por 64% das vítimas — à frente do Gmail (32%) e do Instagram (22%). O relatório não fecha o corte por tipo de golpe, mas o crescimento dos grupos de golpe da tarefa mapeado pela Redbelt Security mostra um modelo de negócio criminoso em expansão, com script pronto e marcas famosas emprestadas sem autorização.
Se você já caiu, o que fazer nas primeiras horas
Reúna as provas antes de fazer qualquer outra coisa: prints da conversa, comprovante do PIX, número de telefone e nome de usuário do golpista. Depois, registre um boletim de ocorrência — a maioria dos estados aceita o registro eletrônico, sem precisar ir à delegacia.
Se o pagamento foi feito por PIX, acione o Mecanismo Especial de Devolução direto no aplicativo do banco. O prazo é curto: o banco que recebeu o dinheiro pode bloquear os valores por até 72 horas ao identificar suspeita de fraude, tem até 7 dias corridos para analisar o caso e, confirmada a fraude, 6 horas para devolver o que ainda sobrar na conta do golpista, segundo o Guia de Implementação do MED, do Banco Central. Funciona só enquanto o dinheiro não foi sacado ou repassado adiante: a velocidade da denúncia pesa tanto quanto o valor perdido.
Pare de responder ao grupo e bloqueie os contatos. Insistir em “recuperar” o que já foi perdido, dentro da mesma conversa, costuma custar mais um depósito.
O depósito que Ester não fez
Ester não recuperou o R$ 1,2 mil. Mas recusou o pedido de R$ 2,6 mil — e foi essa recusa, não a primeira desconfiança, que travou o prejuízo onde travou. Cada depósito seguinte, no golpe da tarefa, é maior que o anterior por design: o golpista sabe que quem já perdeu dinheiro tende a pagar mais uma vez, na esperança de reaver tudo de uma vez.
É esse cálculo que separa quem sai do golpe cedo de quem entra numa espiral que só cresce. Não existe rodada final generosa esperando depois do próximo PIX. Existe só o próximo pedido, maior que o de ontem.
Fontes citadas no texto
- Sindicato dos Bancários de Goiás — “Golpe das tarefas: veja como uma falsa vaga de home office fez uma trabalhadora perder R$ 1,2 mil” (11/08/2026)
- Febraban — “Febraban alerta para o golpe do falso emprego” (12/05/2026)
- Gizmodo Brasil, citando levantamento da Redbelt Security — “Golpe da Tarefa dispara no Brasil” (02/12/2025)
- CNN Brasil, citando o relatório “O Estado dos Golpes no Brasil 2026” da Global Anti-Scam Alliance (GASA) — “Golpes digitais: Brasil teve 34 bilhões de tentativas em 2025” (07/08/2026)
- Banco Central do Brasil — Guia de implementação dos procedimentos de devolução no Pix (MED)




