Golpe do SMS dos Correios e da Receita Federal: Como Identificar e o Que Fazer

Um SMS avisou: encomenda retida. O morador de Salto, no interior de São Paulo, clicou no link e pagou R$ 74,90 por Pix para liberar o pacote. Não havia encomenda nenhuma.

O mesmo roteiro se repetiu em Joinville, em Santa Catarina, e em Jandira, na Grande São Paulo, segundo o Reclame Aqui — sempre com o nome de uma instituição que o brasileiro reconhece de cor e não quer contrariar: os Correios.

Existe uma segunda versão do mesmo golpe, com outro nome que abre a mesma porta. Em vez de encomenda, o SMS promete restituição do Imposto de Renda, ou avisa de uma pendência que, sem correção, vai bloquear o CPF.

As duas variantes têm o mesmo motor: pressionar a vítima a agir depressa, usando a autoridade de um órgão que ninguém quer ignorar. É esse mecanismo, não a sofisticação técnica, que faz o golpe do SMS continuar funcionando mesmo contra quem já ouviu falar dele.

Nos dois casos, o texto é curto, o link é curto, e a decisão que ele pede também precisa ser curta. De propósito.

Como funciona o golpe da encomenda retida

O texto costuma dizer que uma encomenda está parada na alfândega ou no centro de distribuição, e que falta pagar uma taxa para liberá-la. Segundo o Aos Fatos, mensagens desse tipo circulam desde pelo menos julho de 2024 e cobram valores fixos: em um dos casos analisados, R$ 47,59 via Pix. O link leva a um site que copia a identidade visual dos Correios, pede o CPF para uma falsa “consulta” e, na sequência, o pagamento.

Os Correios confirmaram o golpe em nota nas redes sociais e reforçam, em alerta oficial, que o rastreamento de encomendas deve ser feito exclusivamente pelo aplicativo dos Correios ou pelo site correios.com.br, nunca por um link recebido em mensagem. Transportadoras privadas fazem o mesmo alerta: a Jadlog e a Total Express publicaram avisos no Reclame Aqui informando que não existem cobranças adicionais para entrega de encomendas.

Mesmo assim, o golpe voltou a crescer em setembro de 2025, em relatos que envolveram consumidores no Rio de Janeiro e em São Paulo. Normalmente em datas de alto volume de compras, quando mais gente está mesmo esperando um pacote.

Como funciona o golpe da restituição do Imposto de Renda

Aqui a isca muda de nome, mas não de estrutura. A mensagem afirma que a restituição foi liberada, que há uma pendência no CPF, ou que falta uma taxa para receber o valor. “As mensagens geralmente informam que a pessoa tem direito à restituição”, explica o delegado Luiz Cláudio Martins ao portal Paranaíba Mais, descrevendo a urgência artificial usada para induzir o clique no link malicioso.

O golpe se intensifica perto da liberação dos lotes oficiais: em 2026, segundo o Estado de Minas, o primeiro lote de restituição saiu em 29 de maio, data que os golpistas usaram como gancho para disparar mensagens em massa por SMS, WhatsApp e e-mail. O link imita o layout do site da Receita Federal e pede dados bancários e senha, sob o pretexto de corrigir um “erro na declaração”.

A Receita Federal responde no próprio portal “É Golpe?”: o órgão nunca liga nem envia mensagem cobrando pagamento, nunca aceita pagamento por link, QR Code ou cartão, e qualquer consulta deve passar só pelo Portal gov.br, pelo e-CAC ou pelo aplicativo oficial. Um dos exemplos que o próprio órgão divulga mostra até o endereço de e-mail usado por golpistas em uma dessas campanhas — um domínio que nada tem a ver com o governo.

O problema é que, para quem recebe a mensagem no meio da correria do dia, a versão falsa e a real chegam parecidas, com o mesmo tom de urgência e os mesmos verbos: “regularize”, “libere”, “confirme”.

Os sinais que denunciam o golpe

Alguns detalhes aparecem repetidos nos dois golpes:

  • O link não termina em correios.com.br ou em gov.br: costuma ser um domínio parecido, com letras trocadas ou um final diferente (.site, .info, .online).
  • Pedem pagamento por Pix, QR Code ou cartão para “liberar” algo que, oficialmente, nunca se libera por SMS.
  • O prazo é sempre curto (horas, às vezes minutos) e vem acompanhado de ameaça: bloqueio do CPF, devolução da encomenda, perda do prazo de restituição.
  • Pedem senha ou dados bancários completos para uma simples “confirmação de identidade”.
  • Domínios desse tipo, segundo o Detector de Site Confiável do Reclame Aqui, aparecem registrados havia só dois dias, fora do Brasil.

Nenhum desses sinais, sozinho, prova o golpe. A combinação prova.

O que Correios e Receita Federal dizem oficialmente

Os dois órgãos convergem no ponto central: nenhum dos dois cobra taxa por link enviado em SMS. Quando existe uma cobrança legítima (caso de imposto de importação em compras internacionais, por exemplo), ela só é gerada e paga dentro do aplicativo ou do site oficial, nunca por um link externo recebido por mensagem.

A Receita Federal vai além: orienta o cidadão a digitar o endereço gov.br/receitafederal diretamente no navegador, em vez de clicar em qualquer link recebido, e a desconfiar mesmo quando os dados exibidos na tela (nome, CPF, valor) parecem corretos. É um detalhe que pega muita gente de surpresa: o site falso pode exibir informação real, coletada de vazamentos anteriores, só para parecer legítimo.

Cliquei no link, mas não paguei nem informei dados: o que fazer

Se o clique não passou de abrir a página, o estrago tende a ser pequeno, mas exige os mesmos cuidados de sempre. Feche a página sem preencher nada. Não baixe nenhum arquivo que ela ofereça. Apague a mensagem e bloqueie o número. No caso de SMS, é possível também encaminhar o texto ao próprio operador de telefonia para denúncia.

Depois, confirme a informação real pelo canal oficial: abra o aplicativo dos Correios para checar se existe mesmo uma encomenda em trânsito, ou entre no e-CAC para ver se há alguma pendência real registrada em seu CPF. Na grande maioria dos casos, não existe nada: nem encomenda parada, nem restituição, nem pendência.

Informei dados bancários ou paguei: os passos seguintes

Aqui o relógio importa. Ligue para o banco ou abra o aplicativo imediatamente para bloquear o cartão ou a conta usada no pagamento. Quanto antes o bloqueio, menor a chance de o golpista repetir a cobrança ou usar os dados em outro lugar. Troque a senha do banco e de qualquer outro serviço em que use a mesma senha, porque esse é justamente o padrão que o golpista tenta explorar em seguida.

Registre um boletim de ocorrência, de preferência em uma delegacia especializada em crimes cibernéticos. O documento formaliza o caso e costuma ser exigido pelo banco em pedidos de contestação. Guarde print da mensagem, do site falso e do comprovante de pagamento antes de fazer qualquer uma dessas etapas: é a prova que sustenta a reclamação depois.

Onde denunciar o golpe

A SaferNet Brasil mantém canal de denúncia de crimes cibernéticos aberto ao público: a central recebeu 87.689 denúncias inéditas em 2025, alta de 28,4% sobre o ano anterior, segundo a Agência Brasil. O número não separa phishing por SMS das demais categorias, mas mostra a escala do problema digital no país.

Os Correios também mantêm canal próprio de denúncia de fraude em seu site, e o Reclame Aqui recebe relatos desse golpe e mantém ferramenta própria para checar a confiabilidade de um domínio antes de clicar. Há ainda um detalhe que vale registrar: bancos e empresas como a Serasa publicam listas fechadas de números curtos que usam para enviar SMS oficial. Correios e Receita Federal não têm equivalente: qualquer SMS desses dois órgãos pedindo pagamento, de qualquer número, já nasce suspeito.

O domínio que enganou o morador de Salto tinha sido registrado dois dias antes, fora do Brasil. R$ 74,90 é pouco perto do que se perde quando a mesma isca pede os dados bancários completos — aí a conta drenada pode levar meses para voltar, se voltar.


Fontes citadas no texto

Rafael Mendes
Rafael Mendes

Olá! Eu sou Rafael Mendes, fundador e redator do Consumidor Certo.

Há mais de oito anos produzo conteúdo sobre consumo, serviços, tecnologia e atendimento ao consumidor no Brasil. Meu trabalho é transformar regras, leis e procedimentos em informações simples, práticas e fáceis de entender.

No Consumidor Certo, pesquiso diariamente normas do Código de Defesa do Consumidor, orientações de órgãos oficiais, bancos, empresas e plataformas digitais para explicar quais são os seus direitos e quais passos você pode seguir para resolver problemas com compras, Pix, cartões, entregas, garantias, assinaturas e outros serviços.

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Acredito que informação de qualidade ajuda o consumidor a tomar decisões melhores, evitar prejuízos e resolver problemas de forma mais rápida e segura.

Artigos: 54

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