Eduardo tinha R$ 87 mil aplicados e um carro à venda até o fim do ano. Faltava só uma coisa: o banco liberar o novo limite do Pix a tempo.
Ele pediu o aumento em 30 de dezembro de 2025, às 9h30: de R$ 20 mil para R$ 90 mil, na conta empresarial que mantinha no Nubank. O aplicativo mostrou um prazo de quase 39 horas para liberar o valor. O prazo do vendedor vencia no dia seguinte, 31 de dezembro. A liberação só saiu em 1º de janeiro, quando o carro já tinha ido para outro comprador.
O caso está registrado no Reclame Aqui, com nome, cidade — Guarulhos, SP — e data. Na resposta, o Nubank disse ter seguido “o prazo regulamentar de 24 a 48 horas” e citou uma instrução normativa do Banco Central como base da demora. Eduardo encerrou as contas pessoa física e jurídica que tinha no banco e levou os investimentos para outra instituição.
Esse tipo de reclamação se repete em bancos diferentes, com valores diferentes, mas sempre com a mesma pergunta no fundo: quem manda no limite do Pix, o cliente, o banco ou o Banco Central? Nenhum dos três sozinho.
O Banco Central fixa um piso de segurança, baixo o suficiente para doer quando alguém precisa de mais dinheiro rápido. Acima desse piso, quem decide o teto — e quem pode dizer não a um pedido de aumento — é cada instituição, por conta própria.
Regras do Banco Central: o piso, não o teto
Duas regras vêm direto do regulador e valem para qualquer banco, cooperativa ou fintech que ofereça Pix.
A primeira é o limite noturno. Desde a Instrução Normativa BCB nº 185, de 2021, o período de segurança pode começar entre 20h e 22h, nunca depois disso, e vai até as 6h da manhã. Dentro dessa janela, o valor padrão liberado é de R$ 1.000, somando todas as operações da noite. O cliente escolhe o horário de início dentro dessa faixa; o banco não pode empurrá-lo para depois das 22h.
A segunda é o limite para aparelho novo. A Instrução Normativa BCB nº 491, em vigor desde 1º de novembro de 2024, restringe transações feitas por um celular ainda não cadastrado a R$ 200 por operação e R$ 1.000 por dia, até que o dispositivo passe pela validação de segurança do próprio banco: biometria, confirmação em vídeo ou mecanismo equivalente.
Fora essas duas janelas, o Banco Central não fixa valor nenhum. É daí que nasce a maior parte da confusão.
Teto diário: decisão do banco, não da norma
Não existe, no regulamento do Pix, um valor máximo diário definido pelo Banco Central para transferências comuns durante o dia. Cada instituição define o próprio teto, cruzando renda declarada, histórico de movimentação e tempo de conta — segundo o levantamento feito pela Capitalist junto a especialistas do setor.
Também não existe regra do Banco Central fixando um valor menor para a primeira transferência a uma chave nova, ou a um contato nunca usado antes, ao contrário do que costuma circular em comentários de redes sociais.
O que existe é prática de cada banco: parte das instituições aplica, por conta própria, um teto mais baixo nas primeiras horas depois que uma chave é cadastrada como destinatária. Esse número muda de banco para banco e não está em nenhuma norma pública do BC.
Por isso duas pessoas com o mesmo salário, no mesmo banco, podem ter limites diários diferentes. E a mesma pessoa, em bancos diferentes, pode ter de R$ 2 mil a R$ 50 mil de teto diário sem que nenhuma das duas contas esteja errada.
24 a 48 horas: o prazo que trava pedidos urgentes
Pedir aumento de limite é simples: abre-se o aplicativo, digita-se o valor, confirma-se com senha ou biometria. O pedido em si é rápido. Quem trava tudo é o prazo de análise que vem depois.
O Banco Central exige um intervalo mínimo entre o pedido e a liberação de um limite maior, normalmente de 24 a 48 horas, dependendo do canal e do valor.
A lógica é de segurança: se um golpista já tiver acesso à conta e tentar liberar valores maiores para esvaziá-la, esse intervalo dá tempo para o titular perceber e cancelar antes que o dinheiro saia. A redução funciona ao contrário. Pode ser aplicada de forma imediata, sem esse intervalo.
Foi exatamente essa janela que consumiu o prazo de Eduardo. Não foi o único caso.
Em Taubaté, SP, um cliente do PicPay pediu para elevar o limite de R$ 80 mil para R$ 500 mil, para movimentar operações na bolsa de valores. A instituição negou o pedido alegando política interna, sem detalhar qual critério faltava nem oferecer alternativa. Segundo o relato, publicado em agosto de 2025, o mesmo valor já tinha sido aprovado antes em outro banco, para a mesma finalidade.
A regra do prazo mínimo é do Banco Central. A decisão de aprovar, recusar ou pedir mais documentos é do banco. É aí que mora a maior parte das reclamações.
Limite reduzido sem aviso: como acontece
O caminho inverso também aparece nas reclamações, e costuma pegar o cliente ainda mais desprevenido.
Em janeiro de 2024, um cliente do Banco do Brasil, em Belo Horizonte, tentou pagar a conta de um restaurante num domingo e o Pix não passou: o limite disponível tinha sido reduzido sem aviso. Segundo a resposta do banco, os limites são recalculados automaticamente conforme histórico de utilização, perfil do cliente e período do dia, sem que isso exija pedido ou autorização prévia de quem usa a conta.
Dois meses depois, em Recife, um cliente pessoa jurídica relatou algo parecido: o banco reduziu os limites de Pix de várias contas cadastradas, incluindo contas já validadas havia meses, sem aviso prévio. A resposta oficial confirmou que o ajuste tinha sido automático, com base no cálculo da movimentação financeira, e que reverter exigia uma nova solicitação, sujeita ao mesmo prazo de 24 a 48 horas que vale para qualquer aumento.
O padrão que aparece nos dois casos é o mesmo. O banco pode apertar o limite na hora, sem pedir licença. Para liberá-lo de novo, o cliente entra na mesma fila de quem nunca teve limite nenhum.
Outubro de 2026: nova regra do Pix Automático
Em 17 de junho de 2026, o Banco Central publicou a Instrução Normativa BCB nº 746, que altera as regras do Pix Automático, a modalidade usada para cobranças recorrentes, como assinaturas e mensalidades. A partir de 1º de outubro de 2026, o usuário poderá pedir aumento ou redução do limite diário dessa modalidade. O texto da norma deixa explícito que o pedido de aumento poderá ser aceito a critério da instituição participante.
É a primeira vez que o Banco Central escreve, em letra de norma, o que os casos anteriores já mostravam na prática: a palavra final sobre aprovar um limite maior é do banco.
Vale separar essa mudança de outra que circulou bastante e gerou confusão. Em setembro de 2025, o Banco Central criou um teto de R$ 15 mil para Pix e TED, mas essa regra vale só para instituições de pagamento não autorizadas a funcionar como banco, conectadas ao sistema por meio de prestadores de tecnologia terceirizados.
É uma medida contra fraude organizada, segundo o próprio presidente do BC. Quem tem conta em banco tradicional, cooperativa ou fintech autorizada não é afetado por esse teto específico.
Golpe do “aumento aprovado”: como funciona
Em dezembro de 2025, uma onda de mensagens por SMS e e-mail prometia “aumento de limite aprovado” para clientes do Bradesco e do Itaú. O link levava a uma página falsa que pedia número completo do cartão, validade e o código de segurança impresso atrás dele.
Quem preenchia entregava os dados para clonagem do cartão de crédito. O alvo era outro, mas o gancho psicológico era idêntico: a promessa de mais dinheiro liberado, sem esforço, na hora.
Nenhum banco pede código de segurança do cartão, senha do aplicativo ou token de confirmação por telefone, SMS ou link para liberar qualquer limite. Um aumento real de limite do Pix só acontece de dentro do aplicativo que o próprio cliente abriu, com login e biometria próprios. Nunca por um link enviado por terceiros, nem por uma ligação que se identifica como central de segurança do banco.
A demora que Eduardo e o cliente de Taubaté tanto reclamaram tem um efeito colateral que raramente aparece nas queixas: é a mesma barreira que impede um golpista de aprovar um limite maior na conta de outra pessoa em poucos minutos.
Se alguém liga se passando pelo banco e induz a vítima a pedir um aumento “para liberar uma transferência”, o pedido cai na mesma fila de 24 a 48 horas. Tempo suficiente, na maioria dos casos, para perceber o golpe antes que o dinheiro saia da conta.
Como pedir aumento sem cair em cilada
O menu muda de banco para banco, segundo o mapeamento feito pela Serasa:
- Itaú: Perfil → Segurança e privacidade → Meus limites → Limites do Pix.
- Bradesco: Menu → Pix → Meus limites Pix.
- Santander: menu lateral → Pix → Meus limites Pix.
- Nubank: área Pix → Configurar Pix → Meus limites Pix.
- Caixa: aplicativo → Pix → Meus limites.
Duas regras valem para qualquer um desses caminhos: reduzir o limite tem efeito imediato, e pedir aumento sempre entra na janela mínima de 24 a 48 horas. Antes disso, nenhum aplicativo libera o valor, mesmo que o cliente confirme dez vezes.
Quem tem uma compra grande com data marcada — um carro, um imóvel, uma operação na bolsa — precisa contar essa margem no planejamento, não depois que o prazo já venceu. Foi essa margem, e não a falta de dinheiro, que tirou o carro das mãos de Eduardo.
Fontes citadas no texto
- Reclame Aqui — reclamação contra o Nubank, negativa/atraso na liberação de aumento de limite Pix, publicada em 1º de janeiro de 2026 (Guarulhos, SP)
- Tecnoblog — “Banco Central muda faixa de horário do período noturno de transferências via Pix”, 22 de novembro de 2021, sobre a Instrução Normativa BCB nº 185/2021
- Estado de Minas — “Bancos como Nubank, Itaú e Caixa passam a seguir novas regras do Banco Central para limites e bloqueio automático do Pix”, 22 de abril de 2026, sobre a Instrução Normativa BCB nº 491/2024
- Capitalist — “Tenho dinheiro, quero fazer Pix, mas o banco não está autorizando. O que está acontecendo?”, sobre critérios de cada banco para o teto diário
- Reclame Aqui — reclamação contra o PicPay Bank, negativa de aumento de limite Pix, 31 de agosto de 2025 (Taubaté, SP)
- Reclame Aqui — reclamação contra o Banco do Brasil, redução de limite Pix sem aviso, 31 de janeiro de 2024 (Belo Horizonte, MG)
- Reclame Aqui — reclamação contra o Banco do Brasil, redução de limites Pix de conta PJ sem autorização, 25 de março de 2024 (Recife, PE)
- Contábeis — “Banco Central muda regras de limites do Pix”, sobre a Instrução Normativa BCB nº 746/2026, em vigor a partir de 1º de outubro de 2026
- CNN Brasil — “BC limita Pix em R$ 15 mil para instituições financeiras não autorizadas”, 5 de setembro de 2025
- Monitor do Mercado — “O golpe do ‘aumento de limite aprovado’ já roubou dados de milhares de clientes do Bradesco e Itaú”, 21 de dezembro de 2025
- Serasa — “Limite Pix: regras, como ajustar e diferenças entre bancos”, caminhos de configuração por instituição




